Contas de vidro que crescem nas árvores?

Arbusto de folhas verdes com cachos de pequenas contas de vidro coloridas, como se crescessem em seus galhos, em uma floresta amazônica.

Miçangas na Amazônia: uma história de trocas, saberes e culturas vivas.

Imagine alguém lhe contar que cultiva arbustos nos quais crescem pequenas contas de vidro coloridas. Você provavelmente teria vontade de ver essas árvores extraordinárias!

No entanto, essa é uma história relatada no início do século XX pelo explorador e etnógrafo neerlandês Claudius Henricus de Goeje. Segundo seu relato, membros do povo indígena Saluma teriam contado a membros do povo indígena Tiriyó que suas contas de vidro cresciam em arbustos que eles próprios cultivavam.

Essas contas de vidro, cujas menores são muitas vezes chamadas de perles de rocaille na França e de Miçangas no Brasil, evidentemente não cresciam em árvores. Então, por que contar uma história assim?

Para compreender isso, é preciso conhecer o lugar que essas pequenas contas ocupavam nas trocas e a maneira como artesãos indígenas as integraram às suas próprias criações.

Antes das Miçangas, joias feitas com materiais da natureza

Muito antes da chegada das contas de vidro europeias, os povos indígenas da Amazônia já produziam joias com os materiais disponíveis em seu ambiente: sementes, fibras vegetais, conchas, ossos ou dentes de animais.

Esses materiais não eram escolhidos ao acaso. Dependendo dos povos e das criações, podiam participar de tradições estéticas, sociais, cerimoniais ou protetoras. Um colar, portanto, não era necessariamente um simples acessório: podia ocupar um lugar particular na vida de quem o usava.

As sementes tinham, entre outras coisas, um papel importante na fabricação de muitas joias. Algumas eram procuradas por sua forma, sua cor ou sua resistência. E nem todas as plantas cresciam em todos os lugares: uma semente proveniente de outra região podia, portanto, ser obtida por meio das trocas entre povos.

Depois, ao longo dos contatos com o mundo exterior, um novo material apareceu: a conta de vidro.

Como as contas de vidro chegaram à Amazônia?

contas Miçanga

Com a expansão colonial europeia, as contas de vidro circularam pelas Américas. Fizeram parte dos objetos trocados entre europeus e povos indígenas e, depois, continuaram circulando pelas redes de troca entre diferentes povos.

Às vezes se fala em “moeda de troca” para explicar seu papel. A expressão ajuda a compreender que elas podiam ser procuradas e trocadas por outros bens. Mas isso não significa que funcionassem em todos os lugares como a nossa moeda atual: seu valor e seus usos variavam conforme os povos e as situações.

Para os artesãos, as Miçangas também ofereciam novas possibilidades: cores variadas, pequenas formas regulares e um material que podia ser enfiado, montado e combinado com outros elementos.

As contas de vidro não criaram a arte da joia na Amazônia. Elas chegaram a culturas que já possuíam seus próprios saberes.

Por que os Saluma teriam falado de arbustos de contas?

Voltemos à anedota relatada por De Goeje.

Membros do povo indígena Saluma teriam explicado a membros do povo indígena Tiriyó que suas contas de vidro cresciam em arbustos que eles próprios cultivavam.

À primeira vista, a história parece quase fantástica. Mas, se considerarmos a importância das trocas e, em especial, o papel das sementes e dos materiais vegetais na fabricação de joias, outra leitura se torna possível.

Os Saluma teriam querido manter em segredo a origem de suas contas? Ao sugerir que eles próprios as cultivavam, estariam tentando se apresentar como produtores de um recurso procurado, preservar uma posição privilegiada nas trocas ou até manter um monopólio junto a seus parceiros comerciais?

A imagem dos arbustos também pode ter tido importância. As sementes utilizadas nas joias vinham de plantas reais, às vezes ausentes da região onde viviam aqueles que desejavam obtê-las. Apresentar as contas de vidro como uma espécie de nova semente, proveniente de arbustos cultivados por eles mesmos, poderia tornar sua origem mais familiar e mais plausível. Também poderia sugerir que controlavam sua produção e que outros povos precisariam continuar recorrendo a eles para obtê-las.

Essa é uma interpretação possível, não uma intenção que podemos afirmar com certeza. O relato histórico não permite saber exatamente por que essa explicação foi dada, nem se os Saluma realmente buscavam manter um monopólio.

Essa anedota nos convida a olhar para as contas de outra forma. Em uma época em que sementes e materiais vegetais ocupavam um lugar importante na fabricação de joias e nas trocas entre alguns povos, a ideia de contas crescendo em arbustos podia se inserir em um universo familiar.

Afinal, algumas sementes procuradas para a fabricação de joias vinham de plantas que não cresciam em todas as regiões. Apresentar as contas de vidro como um novo tipo de semente, cultivada localmente, poderia, portanto, dar a elas uma origem concreta e reconhecível, ao mesmo tempo que sugeria que os Saluma controlavam seu fornecimento.

Se essa fosse sua intenção, a história também poderia servir aos interesses deles nas trocas: ao se apresentarem como aqueles que cultivavam essas contas, os Saluma poderiam incentivar seus parceiros a continuar procurando-os para obtê-las. A questão, então, não seria apenas possuir belas contas, mas talvez também conservar uma posição privilegiada em sua circulação e em seu comércio.

Adotar Miçangas não significa abandonar a própria cultura

Essa é, sem dúvida, a parte dessa história que mais me toca.

Quando observamos hoje uma joia indígena feita com Miçangas, poderíamos imaginar que as contas de vidro substituíram os materiais utilizados anteriormente e, com eles, parte da cultura de quem as usava.

Mas mudar de material não significa necessariamente mudar de cultura.

Os artesãos indígenas não receberam simplesmente um objeto vindo de fora para reproduzir aquilo que os europeus faziam. Eles puderam integrar esse novo material às suas próprias criações, segundo seus gostos, suas técnicas, seus usos e suas referências culturais.

As Miçangas tornaram-se, assim, em diferentes contextos, uma nova maneira de expressar saberes que já estavam vivos. Elas também puderam ser combinadas com sementes, fibras e outros materiais, em vez de substituí-los completamente.

Uma tradição que evolui

Isso não significa que todos os povos tenham recebido as contas de vidro da mesma maneira, nem que as transformações ligadas à colonização não tenham tido consequências. Significa que os artesãos indígenas também foram agentes dessas mudanças: fizeram suas próprias escolhas e deram novas formas às suas criações.

Quando uma tradição encontra um novo material

E se um material que associamos à vida moderna pudesse encontrar seu lugar em uma joia tradicional?

Entre os Asurini do Xingu, um povo indígena do Brasil, alguns colares tradicionalmente feitos com dentes de macaco foram recriados a partir de um material inesperado: tubos de PVC branco. Os artesãos recortam elementos que reproduzem a forma dos dentes.

Por que essa escolha?

Os Asurini explicaram à antropóloga Fabíola Silva que reunir os dentes necessários para fabricar os colares exigia muito trabalho. Além disso, os dentes amareleciam com o tempo.

O PVC, por sua vez, era mais fácil de encontrar e de manter. Permitiria conservar a brancura desejada e apresentava outra vantagem muito concreta: os colares eram mais leves para dançar.

E aqui está o que me toca particularmente nessa história: os Asurini continuavam usando esses colares em seus rituais. O material tinha mudado, mas os artesãos haviam preservado a forma que buscavam e o lugar dessa joia em suas práticas culturais.

Não é porque um artesão adota um novo material que ele abandona aquilo que sua criação representa para ele, nem sua cultura.

E entre os Marubo?

Os Marubo, outro povo indígena do Brasil, também produzem joias que combinam diferentes materiais. O Museu Nacional dos Povos Indígenas do Brasil conserva, entre outros, colares Marubo compostos por contas de PVC branco e pequenos elementos talhados no caroço de tucumã, a parte dura do fruto de uma palmeira. Sua coleção também inclui criações que associam PVC, fibras vegetais e dentes de animais.

Esse encontro entre materiais vegetais e materiais recuperados, eu também conheci por meio do trabalho de Jackson Marubo, um artesão parceiro cujas criações apresento na coleção Marubo da Amazonikaa.

Jackson me explicou que recupera materiais abandonados para lhes dar uma nova vida. Na floresta, recolhe, entre outras coisas, conchas vazias de caracóis, que transforma em elementos de pulseiras. Também recupera tubos de PVC e outros objetos de plástico descartados, incluindo garrafas brancas, que encontra entre os resíduos e recorta para criar joias.

Lembro especialmente de uma pulseira que Jackson me mostrou. Ele havia recortado PVC branco recuperado em cubinhos muito pequenos e talhado pequenos cubos no caroço de tucumã, que é preto. Depois os montou alternando as cores: um cubo branco de PVC, um cubo preto de caroço de tucumã, novamente um branco, um preto… O resultado era uma pulseira preta e branca, de contraste muito gráfico, que achei especialmente bonita.

Ao associar um material natural a plástico recuperado, Jackson mostrava que um material descartado podia encontrar um novo lugar em uma criação artesanal.

Eu já conhecia esse tipo de pulseira, pois havia selecionado para a Amazonikaa criações de Jackson feitas com pequenos cubos de caroço de tucumã. Ao conhecer sua versão que combina o tucumã ao PVC recuperado, vi como ele podia fazer evoluir um mesmo modelo brincando com os materiais e as cores.

Esse encontro me lembrou o quanto é importante observar o trabalho de um artesão e ouvi-lo explicar suas escolhas antes de decidir, em seu lugar, quais materiais seriam ou não “autênticos”.

O plástico pode se tornar um material de criação responsável?

Hoje sabemos que o plástico causa importantes problemas ambientais. É, portanto, natural questioná-lo quando aparece em uma joia artesanal.

Mas, para compreender uma criação, também é preciso se interessar pela origem de seu material e pela forma como o artesão o utiliza.

No caso de Jackson Marubo, o plástico que ele trabalha vem de objetos descartados ou abandonados. Ao recuperar um tubo de PVC ou uma garrafa e depois recortá-los em pequenos elementos para criar uma pulseira ou outra joia, ele dá uma nova vida a um material que havia sido descartado.

Podemos falar em reciclagem no sentido corrente do termo. Mais precisamente, trata-se aqui de recuperação e reutilização criativa: Jackson transforma objetos usados em joias, sem derreter o plástico para produzir um novo material.

Essa prática não é exclusiva de Jackson. Exemplos de reutilização de garrafas e baldes de plástico para produzir joias também foram documentados entre os Akuntsu, outro povo indígena do Brasil.

Isso não significa que todas as joias de PVC sejam feitas com materiais recuperados, nem que a reutilização apague os problemas ambientais ligados ao plástico. Mas, no trabalho de Jackson, a recuperação é uma etapa essencial da criação.

O que me toca em sua abordagem é essa capacidade de olhar para um material de outra forma. Uma concha vazia encontrada na floresta, um pedaço de PVC descartado ou uma garrafa abandonada podem se tornar, em suas mãos, elementos de uma joia.

E, por trás dessa transformação, há muito mais do que uma escolha de material: há o olhar de Jackson, seus gestos e seu saber-fazer.

Uma cultura viva não é uma cultura congelada

Muitas vezes associamos o artesanato tradicional a materiais antigos e a gestos que teriam permanecido idênticos durante séculos.

No entanto, preservar um saber-fazer não significa necessariamente repetir cada detalhe do passado.

Uma artesã pode escolher uma nova cor de Miçanga. Um artesão pode combinar pequenos elementos de PVC recuperado com elementos vegetais. Uma criação pode evoluir ao mesmo tempo que preserva formas, usos ou significados importantes para as pessoas que a produzem.

O essencial é não confundir o olhar externo que lançamos sobre um objeto com o sentido que seus criadores lhe atribuem.

E é precisamente por isso que precisamos ouvir os artesãos: somente eles podem nos contar o que desejam transmitir, o que escolheram modificar e o que sua criação representa.

Por trás de cada conta, uma pessoa e uma história

Quando conheço joias feitas por artesãos no Brasil, não observo apenas suas cores ou suas formas.

Quero saber quem as criou, por que essa pessoa escolheu esses materiais e que história deseja transmitir por meio de seu trabalho.

É também isso que procuro compartilhar com a Amazonikaa, selecionando criações artesanais brasileiras para apresentá-las na França.

A história das contas que crescem nas árvores nos faz sorrir à primeira vista. Mas, no fim, ela nos leva a olhar para esses pequenos objetos de outra forma.

Uma conta de vidro pode atravessar fronteiras. Um material pode mudar. Um artesão pode inventar uma nova maneira de criar.

E, por trás da joia, permanece uma pessoa, um saber-fazer e uma cultura viva que merecem ser conhecidos.

E hoje são as próprias joias que atravessam fronteiras.

Aquelas que seleciono junto a artesãos parceiros no Brasil chegam até a França e depois encontram seu lugar na vida de pessoas que, às vezes, ainda não conhecem as histórias que se escondem por trás delas.

Para conhecer esses saberes por meio das criações de nossos artesãos parceiros, explore a coleção Joias indígenas da Amazonikaa.

É isso que gosto de compartilhar por meio da Amazonikaa: fazer essas criações viajarem sem separá-las de suas origens e despertar o desejo de conhecer as mulheres, os homens e os saberes que lhes dão vida. 💚

Fontes e referências

Caroline Fernandes Caromano, Walid Dani Kaki e Tinde van Andel (2026), Amazonian Seeds and Fruits Used in Indigenous Body Ornaments: A Literature Review, Ethnobotany and Economic Botany, 80, p. 448–466. Este estudo relata a anedota dos arbustos de contas citando Claudius Henricus de Goeje, Beiträge zur Völkerkunde von Surinam (1910), p. 26.

O relato de De Goeje é citado aqui a partir desse estudo; seu texto original não foi consultado diretamente.

Fabíola Silva - estudo sobre os Asurini do Xingu e o uso de PVC na produção de colares que imitam dentes de macaco.

Museu Nacional dos Povos Indígenas do Brasil - coleções de joias Marubo que associam PVC e materiais vegetais.

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