Vitória-régia: ela é comestível!

Vitória-régia

Existem plantas que admiramos pela beleza. E há aquelas que, sozinhas, contam a história de um território inteiro.

A Vitória-régia pertence a essa segunda categoria.

Com suas enormes folhas circulares flutuando sobre a água, ela se tornou um dos símbolos mais emblemáticos da Amazônia. Uma planta quase irreal, que se fotografa, se observa e em torno da qual também foram construídas histórias e lendas.

Mas você sabia que a Vitória-régia é comestível?

cartaz sobre a Vitória-régia comestível

Eu mesma não sabia disso antes de viver uma experiência bastante extraordinária, não muito longe do território onde cresci, no estado do Pará.

Foi ali, no Canal do Jari, que fui pessoalmente conhecer Dona Dulce, uma mulher que dedicou anos a experimentar as possibilidades culinárias dessa planta amazônica.

Mas, antes de contar esse encontro, vamos conhecer melhor essa planta extraordinária.

A gigante das águas amazônicas

Seu nome científico é Victoria amazonica.

Essa planta aquática da família Nymphaeaceae é originária da bacia amazônica. E a palavra “gigante” realmente não é exagero: suas folhas podem atingir até 3 metros de diâmetro, aproximadamente o comprimento de um carro pequeno!

Mas o tamanho não é sua única particularidade.

Sua estrutura é tão engenhosa e sua flutuabilidade tão impressionante que uma folha madura pode suportar cerca de 45 kg quando o peso é corretamente distribuído, o suficiente para sustentar uma criança.

Debaixo dessa imensa superfície verde existe uma verdadeira arquitetura natural.

Uma rede de nervuras forma uma espécie de estrutura que reforça a folha, enquanto sua face inferior, em tons avermelhados ou arroxeados, também é protegida por espinhos.

Sua flor é igualmente fascinante.

Ela se abre à noite, primeiro branca, antes de adquirir progressivamente tons rosados. Atrai então insetos polinizadores e participa de um surpreendente ciclo natural.

Tudo parece espetacular na Vitória-régia: seu tamanho, sua força, sua arquitetura, sua floração.

E, no entanto, uma de suas particularidades mais surpreendentes ainda é amplamente desconhecida, especialmente na Europa.

O tesouro comestível da Amazônia

Foi, portanto, no Canal do Jari, não muito longe de Alter do Chão, que minha forma de olhar para a Vitória-régia mudou completamente.

Esse lugar tem para mim uma ressonância especial.

Originária do Pará, na bacia amazônica, essa região faz parte da minha história e da minha infância.

Mesmo depois de todos esses anos vivendo na França, voltar a esse território nunca é, para mim, apenas uma viagem turística.

É reencontrar paisagens, sensações e uma forma de viver que fazem parte das minhas raízes.

Foi nesse ambiente que fui pessoalmente conhecer Dona Dulce, que se tornou uma pioneira no uso gastronômico da Vitória-régia.

Na casa dela, a planta não é apenas contemplada:

ela é cozinhada e saboreada.

Dona Dulce experimentou durante anos para imaginar inúmeras receitas usando diferentes partes da planta: tempurá, moqueca, espaguete, lasanha, pizza, preparações com banana, sementes, chips, quiche, geleia, sobremesas, bolo…

E tive a oportunidade de provar tudo isso.

Tudo o que era possível conhecer e degustar ali, eu experimentei.

Para além da surpresa de descobrir a Vitória-régia em todas essas formas, guardo uma lembrança inesquecível dessa experiência: todos esses pratos estavam deliciosos.

Até hoje tenho as fotos e os vídeos desse encontro. Para mim, que cresci nessa região do Pará, descobrir dessa forma uma planta tão intimamente associada às paisagens amazônicas foi especialmente marcante.

A Vitória-régia de repente se tornava algo além de um símbolo da Amazônia: tornava-se uma experiência para compartilhar, um saber para transmitir e uma riqueza local a preservar.

Dona Dulce, uma pioneira às margens do Jari

O que torna a história de Dona Dulce tão interessante não é apenas o número de receitas que ela conseguiu criar.

É sobretudo a maneira como tudo começou.

Ao observar a planta, seu ambiente e os animais que a consumiam, ela começou a se perguntar sobre as possibilidades oferecidas por aquela Vitória-régia que crescia ao seu redor.

Então ela tentou. Experimentou, cozinhou, transformou, recomeçou.

Pouco a pouco, aquilo que inicialmente era uma curiosidade se tornou um verdadeiro trabalho em torno da planta.

Ao longo dos anos, Dona Dulce desenvolveu mais de vinte preparações com a Vitória-régia.

Seu trabalho acabou ultrapassando amplamente as margens do Canal do Jari.

Muitos visitantes do Brasil e de outros lugares vão até ela para conhecer seu jardim, compreender seu trabalho e provar suas criações. Sua experiência também chamou a atenção de cozinheiros, meios de comunicação e pesquisadores.

Podemos dizer que ela é a única pessoa no mundo a cozinhar Vitória-régia?

Hoje seria difícil afirmar isso.

Mas Dona Dulce é reconhecida como uma das pioneiras dessa valorização gastronômica da Vitória-régia, e seu trabalho contribuiu para tornar conhecidas possibilidades culinárias que muitas pessoas desconheciam.

E talvez seja justamente aí que sua história se torne ainda mais interessante.

Um saber desenvolvido às margens de um canal amazônico pode viajar, despertar curiosidade, inspirar outras pessoas e mudar nossa maneira de olhar para uma planta.

E se a floresta tivesse mais valor viva do que destruída?

A história de Dona Dulce nos leva a uma questão muito maior do que a gastronomia.

Que valor damos à biodiversidade?

As riquezas da Amazônia foram, muitas vezes, consideradas apenas pelo que se podia extrair delas: madeira, minérios, terras agrícolas e outros recursos.

Mas existe outra maneira de imaginar a economia de um território.

É aqui que entra a noção de bioeconomia.

No contexto amazônico, ela permite pensar, entre outras coisas, em atividades capazes de gerar renda apoiando-se na biodiversidade, nos recursos renováveis e nos conhecimentos locais, ao mesmo tempo em que se mantêm os ecossistemas dos quais essas atividades dependem.

A experiência de Dona Dulce oferece uma ilustração muito concreta disso.

Uma planta cresce em seu ambiente. Ela a observa e percebe as interações com outras espécies. Aprende a conhecê-la. Experimenta. Cria.

Depois, as pessoas vão até ela para conhecer seu trabalho, provar suas receitas e compreender essa planta.

A biodiversidade passa então a gerar valor justamente porque permanece viva.

Essa ideia é essencial quando pensamos no futuro da Amazônia.

A Amazônia não é apenas uma floresta

Vista da Europa, a Amazônia é muitas vezes representada como uma imensa extensão verde.

Mas ela é muito mais do que isso. A Amazônia também é um território humano.

Mulheres e homens vivem ali há gerações. Conhecem as plantas, as estações, os rios, os materiais e as transformações de seu ambiente.

Os povos indígenas e as comunidades tradicionais possuem, entre outros, saberes e práticas que são transmitidos ao longo das gerações.

Preservar a Amazônia, portanto, não consiste apenas em proteger árvores, plantas ou animais.

É também permitir que culturas, conhecimentos e saberes continuem vivos.

E é justamente aí que a história de Dona Dulce encontra outra história que me é muito querida: a do artesanato.

Da Vitória-régia ao artesanato: uma riqueza viva

Uma planta pode se transformar em uma receita. Uma semente pode se transformar em uma joia. Uma fibra pode se transformar em um objeto.

Mas, por trás de todas essas transformações, existe algo essencial: o conhecimento humano.

Os artesãos parceiros com quem a Amazonikaa trabalha também utilizam materiais ligados aos diferentes territórios brasileiros: sementes, madeira, fibras vegetais, pedras naturais, Capim Dourado...

Cada criação é fruto de um trabalho manual. As técnicas e os gestos podem ser transmitidos de geração em geração, contribuindo para manter vivo um patrimônio cultural.

Para muitas comunidades, o artesanato também constitui uma atividade econômica essencial.

Ele pode fazer parte de uma abordagem de bioeconomia, permitindo gerar renda ao mesmo tempo que valoriza os recursos naturais locais e os saberes ancestrais.

Uma receita de Vitória-régia e uma joia artesanal são, evidentemente, duas coisas muito diferentes. Mas elas nos contam algo em comum: a riqueza da Amazônia não está apenas no que ela possui.

Ela também está nas mulheres e nos homens que conhecem seu território, transmitem seus saberes e imaginam formas de viver de suas riquezas sem fazê-las desaparecer.

Fazer o Brasil ser conhecido de outra forma

Essa também é uma das razões pelas quais criei a Amazonikaa.

Sou brasileira, originária do Pará, na bacia amazônica, e vivo na França desde 1999. Em 2024, decidi criar a Amazonikaa para contribuir, na minha escala, para a valorização do artesanato local e para a economia dos povos e artesãos com quem trabalho.

A Amazonikaa seleciona e apresenta na Europa criações feitas por artesãos parceiros no Brasil.

Mas, por trás das joias, meu desejo também é transmitir outra coisa: fazer o Brasil ser conhecido de outra forma.

Não apenas por meio de suas paisagens ou das imagens que já conhecemos, mas por meio das mulheres e dos homens que perpetuam saberes, tradições e uma cultura viva. É essa ambição que orienta a visão da Amazonikaa.

Porque uma joia ganha outra dimensão quando sabemos quem a fez, de onde ela vem, quais materiais foram utilizados e quais saberes ela carrega.

No fim, foi isso que meu encontro com Dona Dulce me lembrou.

Uma Vitória-régia pode parecer apenas uma planta. Uma semente pode parecer apenas uma semente. Uma joia pode parecer apenas uma joia.

Mas, quando conhecemos a pessoa, o território, o gesto e a história, nosso olhar muda.

É essa Amazônia que quero compartilhar por meio da Amazonikaa: uma Amazônia viva, criativa e profundamente humana.

Uma terra onde mulheres como Dona Dulce transformam uma planta emblemática em experiência, onde artesãos transformam materiais em patrimônio vivo e onde cada saber-fazer nos lembra algo essencial: preservar as riquezas da Amazônia também significa reconhecer o valor de quem as conhece, respeita e mantém vivas.

Continue a viagem pelo artesanato brasileiro

A riqueza do Brasil também se revela pelas mãos de quem mantém vivos seus saberes. Conheça as criações selecionadas pela Amazonikaa junto a seus artesãos parceiros e as histórias, culturas e tradições que elas carregam.

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